23 de mar de 2011

Ato III, Cena 1

Entram Rei, Rainha, Polônio, Ofélia, Rosencrantz, Guildenstern, e Lordes.

* Cláudio. E podeis vós, sem circunlóquios, extrair dele por que ele aparenta esta confusão, desbastando tão rudemente todos seus dias de quietude com turbulenta e perigosa insanidade?

* Rosencrantz. Ele chega a confessar
que se sente distraído, mas por que causa ele não fala de modo algum.

* Guildenstern. Nem o achamos disposto a ser sondado, mas, com uma elaborada loucura, mantém-se disperso quando tentamos levá-lo a alguma confissão de seu real estado.

* Gertrudes. Ele vos recebeu bem?

* Rosencrantz. Mui cavalheiramente.

* Guildenstern. Mas forçando muito sua disposição.

* Rosencrantz. Relutante ao diálogo, mas, de nossas questões, mui liberal em sua resposta.

* Gertrudes. Tentastes arrastá-lo a algum passatempo?

* Rosencrantz.Madame, deu-se que certos atores nós ultrapassamos no caminho: destes falamos a ele, e pareceu haver nele um tipo de alegria ao disso ouvir; eles estão pela corte, e, conforme penso, eles já têm ordem de esta noite se apresentarem ante ele.

* Polônio. É bem verdade, e ele me implorou que suplicasse a vossas majestades que ouçam e vejam a encenação.

* Cláudio. Com todo meu coração! E muito me contenta sabê-lo assim inclinado. Bons cavalheiros, dai a ele mais um incentivo, e encaminhai sua disposição a estes prazeres.

* Rosencrantz. Nós o faremos, milorde.

[Saem Rosencrantz e Guildenstern.]

* Cláudio. Doce Gertrudes, deixa-nos também, pois nós secretamente chamamos Hamlet aqui, para que ele, como fora por acidente, possa aqui se defrontar com Ofélia; o pai dela e eu mesmo, espiões legítimos, de tal forma nos postaremos que, vendo sem ser vistos, possamos seu encontro francamento julgar, e colher dele, conforme ele se portar, se é pela aflição de seu amor ou não que assim ele sofre.

* Gertrudes. Eu vos obedecerei. E quanto a ti, Ofélia, de fato desejo que teus bons encantos sejam a feliz causa da loucura de Hamlet, para que eu tenha esperança de que tua virtude o traga a seu modo costumeiro novamente, para ambas vossas honras.

* Ofélia. Madame, eu desejo que ela o possa.

[Sai a Rainha.]

* Polônio. Ofélia, vem até aqui. Graciosa, com tua licença, nós nos esconderemos. Leia deste livro, de modo que a visão de tal exercício possa colorir tua solidão. Nós somos muita vez culpados
nisto, está muito bem provado, que com a efígie da devoção e ação pia nós travestimos o diabo em pessoa.

* Cláudio. [à parte] Oh, é por demais verdadeiro! Que inteligente fustigação essa fala aplica em minha consciência! A face da meretriz, embelezada com arte emplastrada, não é mais feia para a coisa que a ajuda do que o é meu feito para meu mundo tão pintado. Oh, pesado fardo!

* Polônio. Eu o ouço chegar: retiremo-nos, milorde.


[Saem o Rei e Polônio. Entra Hamlet.]

* Hamlet. Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre na mente sofrer as pedras e setas da fortuna enfurecida ou tomar de amas contra um mar de provações e em oposição pô-las a têrmo? Morrer, dormir, não mais, e supor que com um sono eliminemos a dor no coração e as mil mazelas naturais
de que a carne é herdeira; é uma consumação a ser devotamente desejada. Morrer, dormir... Dormir! Porventura sonhar: sim, eis o problema, já que nesse sono mortal os sonhos que possam sobrevir, quando já livres deste turbilhão da existência, devem fazer-nos hesitar: eis o respeito que dá vida tão longa à calamidade, pois quem suportaria o açoite e o escárnio do tempo, o agravo do opressor, a arrogância do orgulhoso, as chagas do amor desprezado, a tardeza da Lei, a insolência da autoridade e o desdém que têm pelo mérito paciente os indignos, quando ele próprio poderia seu quietus engendrar, com um simples furador? Quem carregaria tais fardos,
grunhindo e suando sob uma vida fatigante, não fosse o pavor de algo após a morte! da terra inexplorada de cujas raias viajante algum retorna, a confundir a resolução, e fazer-nos antes suportar as dores que temos que voar até outras as quais ignoramos? Assim faz a consciência de todos nós covardes, e assim o matiz saudável da determinação é acometido pelo pálido verniz da cogitação e empresas de grande vigor e imporância, com tal consideração, seus cursos desviam-se do rumo, e perdem o nome de ação. Cala-te agora! A bela Ofélia Ninfa... em tuas orações sejam lembrados todos meus pecados.

* Ofélia. Olá milorde, como vai vossa
honra por estes muitos dias?

* Hamlet. Eu humildemente agradeço. Bem, bem, bem.

* Ofélia. Milorde, eu tenho lembranças tuas que há muito desejo re-entregar. Rogo-te, receba-as agora.

* Hamlet. Não. Não eu, eu nunca te dei nada.

* Ofélia. Meu honrado lorde sabes muito bem que o fizeste e com elas palavras de tão doce alento compuseste de modo a fazê-las mais caras. Seu perfume perdido, toma isto de novo, pois para a mente nobre presentes caros tornam-se pobres quando o que o deu se prova descortês. Aqui, milorde.

* Hamlet. Ha? Ha? És honesta?

* Ofélia. Milorde?

* Hamlet. És bela?

* Ofélia. Que quer dizer vossa alteza?

* Hamlet. Que se fores honesta e bela, tua honestidade não deveria admitir discurso algum a tua beleza.

* Ofélia. Poderia a beleza, milorde, ter melhor comércio do que com a honestidade?

* Hamlet. Sim, é vero, pois o poder da beleza transforma antes a honestidade do que ela é em uma cafetina do que a força da honestidade pode traduzir a beleza a seu contento; isso foi outrora um paradoxo, mas agora o tempo o comprova. Eu a amei uma vez.

* Ofélia. De fato, milorde, fizeste-me acreditar nisso.

* Hamlet. Não devias ter acreditado em mim, pois a virtude não pode assim inocular nosso velho rebanho, mas nós nos aproveitamos dele: eu não te amava.

* Ofélia. Eu estava mui enganada.

* Hamlet. Vai-te para um convento. Por que serias progenitora de pecadores? Eu mesmo sou razoavelmente honesto, mas ainda assim poderia me acusar de tais coisas que fora melhor que minha mãe não me houvesse parido: sou muito orgulhoso, vingativo, ambicioso, com mais ofensas a meu dispor do que tenho pensamento onde pô-las, imaginação para dar-lhes forma, ou tempo para nelas atuar. Que deveriam sujeitos como eu fazer rastejando entre a terra e o céu? Nós somos rematados crápulas, todos, não creias em nenhum de nós. Toma o rumo de um convento. Onde 'stá teu pai?

* Ofélia. Em casa, milorde.

* Hamlet. Que as portas se fechem sobre ele, para que ele não passe por tolo em outro lugar que não sua casa. Adeus.

* Ofélia. Oh, ajudai-o, doces céus!

* Hamlet. Se tu te casares, darei-te
esta praga para teu dote, sejas tu casta como o gelo, pura como a neve, não escaparás da calúnia. Vai-te para um convento, vai: adeus. Ou, se precisares mesmo
casar-se, case-se com um tolo, pois homens sábios sabem bem o bastante que monstros vós fazeis deles. Para um convento, vai, e depressa também. Adeus.

* Ofélia. O heavenly powers, restore him!

* Hamlet. Oh, poderes celestes, recuperai-o! Eu ouvi falar de vossas pinturas também, muito bem, Deus vos deu uma face, e fazeis para si mesmas uma outra; cambaleais, trotais e tagarelais, e apelidais as criaturas de Deus, e disfarçais vossa malícia como ignorância. Vamos, não irei adiante, isto me fez colérico. Eu digo, não teremos mais casamentos. Aqueles que já estão casados, todos menos um, viverão. O restante se manterá como está. Para um convento, vai.

* Ofélia. Oh, que nobre mente está aqui perturbada! Do cortesão, do soldado, do acadêmico, o olho, a língua, a espada, a expectativa e a rosa do formoso Estado, o vidro do costume e o molde da forma, o observado de todos observadores, muito, muito caído! E eu, das moças a mais
abatida e arrasada que sorvi o mel de seus musicais votos, agora vejo aquela nobre
e mui soberana razão, como doces sinos mal tocados, desafinados e estridentes, aquela sem par forma e aspecto da juventude desabrochada arruinadas com êxtase. Oh, desgraçada que sou, de ter visto o que vi, ver o que vejo!

Entram o Rei e Polônio.

* Cláudio. Amor? Suas afeições não tendem para esse lado, nem o que ele falou, embora lhe faltasse forma um pouco, não parecia loucura. Há algo em sua alma sobre o que sua melancolia fica chocando e eu temo mesmo que o romper e a revelação serão algum perigo; o que para prevenir, eu em
rápida determinação assim decidi: ele vai com rapidez para a Inglaterra para a demanda de nosso tributo negligenciado; por ventura os mares, e países diferentes, com objetos variáveis, expulsará esta algo-assentada matéria em seu coração, sobre a qual seu cérebro ainda batendo aparta-o assim de sua própria maneira. Que pensas disso?

* Polônio. Fará bem, mas no entanto eu creio que a origem e começo desta tristeza surgiram de amor negligenciado. Pois então, Ofélia! Não precisas nos contar o que Lorde Hamlet disse, nós ouvimos tudo.
Milorde, fazei como preferirdes, mas se achais apropriado, depois da peça, deixai a rainha sua mãe sozinha suplicar-lhe que mostre sua mágoa: que ela seja direta com ele, e eu 'starei localizado, se vos agradar, de modo a ouvir toda sua conferência. Se ela não o descobrir, para a Inglaterra com ele, ou confinai-o onde vossa sabedoria melhor pensar.

* Cláudio. Assim será: loucura em grandes pessoas não deve ficar sem ser observada.

2 comentários:

thiago duarte disse...

assistão este vídeo todo http://youtu.be/t9N_RTTLZS4

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