23 de mar de 2011

Ato I, Cena 1

Elsinore. Uma plataforma em frente ao Castelo.

[Entram dois sentinelas: Bernardo chega e derruba Francisco, ambos vão ao chão]
  • Francisco. Não, responde tu: levanta e revela-te!
  • Bernardo. Já bateram as doze. Vai para a cama, Francisco.
  • Francisco. Por este alívio, muito obrigado: faz um frio amargo, e dói-me o coração.
  • Bernardo. Tiveste uma guarda tranquila?
  • Bernardo. Bem, boa noite. Se encontrares Horácio e Marcelo, meus companheiros de vigília, manda-os se apressarem!

[Entram Horácio e Marcelo]

  • Francisco. Creio ouvi-los. Alto! Quem vem lá?
  • Marcelo. E vassalos do Dinamarqês.
  • Marcelo. Oh, até logo bom soldado, quem te rendeu?
  • Francisco. Bernardo está em meu lugar. Tenha uma boa noite.
  • Bernardo. Bem vindo, Horácio. Bem vindo, Marcelo.
  • Marcelo. Então, a tal coisa voltou a aparecer esta noite?
  • Marcelo. Horácio diz ser apenas fantasia nossa, e não se deixa dominar pela crença nesta pavorosa visão, duas vezes por nós vista; eu portanto supliquei-lhe que nos acompanhasse para velar os minutos desta noite, para que, se novamente esta aparição vier, ele possa acreditar nossos olhos e falar com ele.
  • Bernardo. Senta-te um pouco, e deixa-nos outra vez investir contra teus ouvidos, tão fortificados que estão contra nosso relato, aquilo que por duas noites vimos.
  • Horácio. Bem, sentemo-nos e ouçamos Bernardo falar a respeito.
  • Bernardo. A noite passada, de todas, quando aquela mesma estrela a oeste da polar cumprira seu curso para alumiar esta parte do céu onde agora arde, Marcelo e eu, badalava o sino uma...

[Entra o Fantasma]

  • Marcelo. Silêncio, pára de falar; olha, lá vem ele de novo!
  • Bernardo. Na mesma figura, como o rei morto!
  • Marcelo. Tu és um acadêmico, fala com ele, Horácio!
  • Bernardo. Não se parece com o rei? Repara, Horácio!
  • Horácio. Parece bastante. E me deixa aflito de medo e pasmo.
  • Bernardo. Ele quer que falemos com ele.
  • Horácio. O que és tu, que usurpas esta hora noturna, apresentando esta bela e guerreira forma com que sua majestade sepultada Dinamarca outrora marchou? Pelos céus, eu te ordeno, fala!
  • Horácio. Fica! Fala, Fala! Eu te ordeno que fales!

[Sai o Fantasma]

  • Marcelo. Ele se foi e não responde.
  • Bernardo. E agora, Horácio! Tremes e estás pálido; não é isso algo mais que fantasia?
  • Horácio. Perante meu Deus, Eu não poderia crer sem o sensato e vero aval de meus próprios olhos.
  • Marcelo. Não era ele parecido com o rei?
  • Horácio. Como tu és contigo mesmo. Aquela mesma armadura ele usava quando o ambicioso Noruega combateu, e o cenho franzia como na vez em que, em inflamado encontro, atacou os Polacos em trenós, sobre o gelo. É estranho!
  • Marcelo. Assim, já por duas vezes, e justo nesta hora morta, com passo marcial cruzou ele nossa guarda.
  • Horácio. A que pensamento em particular ater-me eu não sei, mas, a inclinação geral de minha opinião é que isso prenuncia alguma estranha erupção em nosso Estado.
  • Marcelo. Muito bem, agora sentai-vos e conta-me, aquele que souber, por que esta mesma estrita e tão atenta guarda a cada noite incumbe aos súditos desta terra, e por que tal disparar diário de retumbantes canhões, e buscar no estrangeiro implementos de guerra, por que os estaleiros tanto recrutam, para uma árdua tarefa que não separa domingo da semana... o que estará por vir, para que esta pressa suada faça a noite laborar junto com o dia? Quem me pode informar?
  • Horácio. Isso eu posso. Ao menos, é isto o que circula: Nosso último rei, cuja imagem agora mesmo apareceu para nós, foi, como sabes, por Fortimbrás da Noruega, na ocasião tomado de assaz ambicioso orgulho, desafiado ao combate, no qual nosso valente Hamlet, pois assim era estimado neste lado do mundo conhecido, matou a esse Fortimbrás, que, por um acordo selado, bem ratificado por lei e heráldica, perdeu, além de sua vida, todas aquelas terras que em sua posse estavam, para o conquistador: em contrapartida, foi empenhado por nosso rei um quinhão adequado, que teria acrescido a herança de Fortimbrás, fosse ele vencedor, assim como pelo mesmo tratado, em execução do designado artigo, o seu coube a Hamlet. Agora, senhor, o jovem Fortimbrás, de temperamento descontrolado e fogoso, tem, nas fronteiras da Noruega, apanhado um rol de foras-da-lei dedicados, em troca de pasto, a alguma empresa com sabor de aventura, que não é outra, como fica para nosso Estado bem evidente, senão retomar de nós, à força, em termos compulsórios, as mencionadas terras por seu pai perdidas; e este, suponho, é o principal motivo de nossas preparações, a fonte desta nossa guarda, e a nascente desta urgência e comoção no país.
  • Bernardo. Não creio ser outra, mas isso mesmo. Faz todo sentido que esta portentosa figura venha em armadura diante de nossa guarda, tão igual ao rei que era e é a questão desta guerra.
  • Horácio. É um cisco a perturbar o olho da mente. No elevado e florescente Estado de Roma, pouco antes de o poderosíssimo Júlio cair, as covas ficaram desabitadas, e os mortos, em mantos, guinchavam e balbuciavam pelas ruas romanas, [linha perdida?] como estrelas com caudas de fogo e gotas de sangue, distúrbios no sol, e a estrela úmida, sob cuja influência o império de Netuno se encontra, adoeceu quase até o Juízo com eclipse. E semelhantes prenúncios de eventos temidos, como mensageiros precedendo ao destino, e prólogo do acontecimento por vir, o céu e a terra juntamente demonstraram a nossas regiões e homens do campo... [Volta a entrar o Fantasma] Mas, quieto, olha! Lá vem ele de novo! Eu o abordarei, ainda que ele me acerte. Fica, ilusão! Se tens algum som, ou emprego de voz, fala comigo. Se houver algo bom a ser feito, que lhe dê alívio, e a mim graça, fala comigo: se segredos sabes sobre o destino de teu país, cuja ciência prévia talvez pudesse evitar, oh, fala! Ou se aprovisionaste em vida tesouro alheio no ventre da terra pelo que, dizem, vós espíritos muita vez andais quando mortos, fala! [O Galo canta] Fica, e fala! Detém-no, Marcelo!
  • Marcelo. Devo atingi-lo com minha alabarda?
  • Horácio. Faze-o se ele não ficar parado.
  • Marcelo. Não 'stá mais. [Sai o Fantasma] Erramos, tão majestoso que é, ao oferecer-lhe mostras de violência, pois ele é, como o ar, invunerável, e nossos golpes vãos, piadas de mau gosto.
  • Bernardo. Estava prestes a falar, quando o galo cantou.
  • Horácio. Ele então se assustou, qual coisa culpada a um chamado temerário. Ouvi dizer que o galo, que é a trombeta da alvorada, acorda, com sua imponente e estridente garganta, ao deus do dia, e sob seu aviso, quer 'steja em mar ou fogo, em terra ou ar, o espírito desencaminhado e errante corre para seu refúgio. E a verdade aí contida o presente fato comprovou.
  • Marcelo. Ele evanesceu ao cantar do galo. Alguns dizem que sempre, pouco antes de chegada a estação em que o aniversário de nosso Salvador é celebrado, o pássaro da aurora canta a noite toda, e então, dizem, nenhum espírito ousa vagar... As noites são íntegras, nenhum planeta golpeia, nenhuma fada encanta, nenhuma bruxa tem poder o poder de enfeitiçar, tão louvada e graciosa é a época.
  • Horácio. Foi o que ouvi, e nisso creio em parte. Mas olha, a alvorada, envolta em manto avermelhado, passeia sobre o orvalho daquela alta colina oriental; Interrompamos nossa guarda; e meu parecer é que participemos o que vimos esta noite ao jovem Hamlet, pois, por minha vida, este espírito, mudo conosco, falará com ele. Concordas que o apresentemos a ele, como imperativo de nosso amor, e conforme nossa obrigação?
  • Marcelo. Façamo-lo, eu rogo, e nesta manhã eu sei onde encontrá-lo de modo bem conveniente.